sexta-feira, 23 de março de 2012

em março

esse rio que corre
e deborda das margens
a água que escorre
a despeito da vida
que sempre
seca]

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

fala entupida

Hoje que Mary está indo para Paris retomo o caderno terapêutico depois de ter dito que a minha cura era “falar tudo”, que me desse e viesse, e assim, angustiada com a partida que me cala ou um flanco de mim, escrevo como quem fala tudo, querendo dizer que hoje, com o Patinho, senti que o meu compromisso primeiro era com a mãe, com as mulheres, com o colo delas, e só secundariamente com ele, com um apelo da realidade muda. Quero que uma mulher me acompanhe (ou ao menos o Armando, que fala tudo e preenche o vazio). Há coisas demais para fazer, não quero ir para minha casa, onde me sinto independente demais (é como um excesso). Volto para a casa de mamãe, e tenho de suportar a angústia de ter que me emudecer até a Mary voltar. Angústia é fala entupida.
[Ana Cristina Cesar]

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

os fins dos meios

entenda
essa porta fechada
à tua espera
a mudez do texto
dentro do sorriso largo
dentro da cabeça dela
o quarto imenso
descabido
inteiro nela
no porvir
do sonho
que ninguém verá

entenda
essa dose dócil de amargura
dentro da boca
num sabor mudo
todo nulo
espere chegar
qualquer coisa que caiba
nessa tua sacola
e cruze a rua
dentro de um barco
no atlântico de teus medos
entenda
dentro da água da chuva
que molha teu rosto
e embaça tuas vidraças

promoção

O livro estará em promoçao pelo site "Clube de Autores" até o final do carnaval... Confira clicando na imagem da capa abaixo!


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

sorteio

Ontem à noite foi realizado o sorteio online do livro entre os que curtiram nossa páfina no facebook.
A ganhadora foi minha querida amiga Stephanie Groetz!
O livro terá de cruzar o Atlântico... E com certeza estará em boas mãos!
Obrigada a todos que participaram curtindo a página e ajudando a divulgar! Em breve farei outras promoções.

Minha francesinha querida e eu em 2009

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

publicação

dois poemas do livro foram publicados na 4ª edição da Revista Macondo: "blue day" e "poema simples". ambos já haviam sido postados por aqui, mas é sempre bom saber que o trabalho começa a ter a possibilidade de alcance ampliada, fazendo parte de um projeto tão bacana como o desta revista literária. Acessem a revista online pelo link:

Acesse a 4ª Edição da Revista Macondo

sábado, 4 de fevereiro de 2012

página 19

passo as folhas
de letras dançantes

passo os dias
de livros inscritos estanques

passo numa estrada lenta
[e se disso fica alguma coisa
deixo em tudo isso umas tantas outras
partes]

passo permeando imagens
passo sem olhar pra trás.

Foto por Diego Sá

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

intervalo

encostado
o gosto
amargo
do muro
de pedra
fincado
nas marcas
da pele
do homem
dobrado
estilhaço
correndo
nas veias
o tiro
velado
na dor
que não viram
na última
noite
[pausa pro trago]

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Ainda faço pauta [Ana C.]

o recolhimento
caipira sem assunto, como filósofo da linguagem cada vez mais muda ou emitindo apenas o óbvio: boa tarde, faça um cozido, o passarinho, meu jardim, onde sento para ler Rosemberg e penso na década de 80 que não é mais 70, quando andávamos mais aflitos mas também mais articulados, identidade ou impressão de identidade em projetos de grupo, e até havia a última mohicana pertencente a 60 que agregava e pensava a juventude e que devia lançar o alerta do sonho acabou, o sonho de 70, a juventude ainda tinha uma inteligência que produzia projetos, e em 80 a última mohicana não está nem aí, não vai ao circo, espera um filho e estuda os mais velhos, como se estivesse entrando na maioridade. À noite a teoria não se aguenta, Rosemberg dá lugar a Joyce, e entrementes sou uma dona-de-casa caprichosa, envelhecendo, que depois do serviço se senta na poltroninha para ler romances ingleses ou rever cartões-postais de uma viagem à Itália ou cartas que recebia periodicamente do Brasil e de vez em quando pensar em móveis caros e na liberação do discurso e da sua inteligência (wit) fluente como único ato de amor possível neste espaço.

a propósito de Glauber: O século do cinema

23.1.81

[é daqui que roubo versos...]